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Monday, July 16, 2012

Mirror, mirror

(Sebastian Sauvé shot by JD Forte and styled by Torian Lewin for And Men magazine)

Pus os pés descalços no chão frio, levantei-me e olhei para o espelho. Não vi ninguém. Não me vi a mim. Deparei-me todavia com a minha finitude, com a minha vulnerabilidade. Tudo aquilo que sempre evitei relutantemente. Na altura, já tinha perdido a conta ao tempo... não sabia dia, nem mês. A letargia era tal que prolongava o estado de corrosão em que eu me encontrava. Despido sem estar nu, devastado mas sob o aspecto de uma estátua.


Existia no espelho um vazio que não podia ser preenchido, não passava de uma ilusão de óptica na qual fingi acreditar. Continuei a olhar para todos os recantos daquele longo espelho oval numa moldura de trabalhado barroco e cor de cerejeira. Senti um peso no estômago, uma vertigem... pois pela primeira vez confrontei-me com aquilo que eu era mas que continuava a não conseguir ver. Os projectos e os sonhos que solidamente construí na minha cabeça estavam agora em ruínas porque eu sentia o tempo a escapar-se-me pelos dedos tal como a areia que escorre numa sinuosa ampulheta. Sentia-me incapaz de reagir, cortaram-me os pés, as mãos, roubaram-me a voz e deixaram-me apenas os olhos para que pudesse olhar no que me tornei e as orelhas para ouvir o que de mal tinham para dizer de mim.


- A minha instabilidade lixou-me!, murmurei. Faltava-me a certeza de que algum dia ia conseguir pisar aquele patamar que sempre desejei. E neste estado nem sequer conseguia pensar em ninguém, só eu existia, ou melhor, sobrevivia. Eu e o meu egoísmo, abraçados numa eterna indiferença. Porque ninguém me compreendeu nem compreende. Porque ninguém tem o direito de destruir os meus desejos, de se apropriar dos meus sonhos. Embora seja persistente, o tempo pungente e implacável faz-me fraquejar... constantemente. Quero apenas olhar-me ao espelho e sentir-me concretizado. Sorrir e receber um sorriso de volta. Desejo que o meu esforço ganhe raízes e consiga florir numa grandeza inimaginável. Espero deixar o meu cunho vincado na homogeneidade sanguinária que se alimenta de inveja e fracasso. Quero sentir-me ímpar e perceber que afinal não sonhei em vão, nem pedi o impossível. Quero extinguir os meus defeitos e estimular a perfeição. Quero esquecer o dia em que me olhei ao espelho e não me vi... o dia em que exigi demais... o dia em que o tempo me castrou os sentidos.


Aos poucos o meu reflexo começou a surgir, muito lentamente e de forma difusa como se estivesse a olhar para água. Antes que as manchas se agregassem em nitidez, dei um murro no espelho e vi-o partir-se diante de mim. Senti os vidros pontiagudos cravarem-se nos nós dos dedos... dei um passo em frente e os vidros espetaram-se na palma do meu pé. A dor tornara-se num conceito intelectual, o sangue pintava aquele cenário lúgubre e soturno e nele afogavam-se as desilusões de outrora. Tento agora que o futuro não sufoque as minhas convicções e caminho para uma reconciliação comigo próprio.

Thursday, January 5, 2012

Rebound

Decidi ir reler o texto que escrevi sobre ti. Apenas para ter a certeza de que tinha posto as vírgulas no sítio certo, se não faltava nenhum ponto final. Em relação a ti, foi sempre assim que estive... sem saber onde estavam os pontos finais. Não sabia se já tinha acabado. Se continuava, ainda que latente, uma submissa vontade de te amar. Houve dias em que te esqueci por completo, inebriado num êxtase egoísta, outros dias em que me surgias na mente e te alavancavas na minha carne. Sentia a tua falta. Precisava que gostasses de mim, como já o tinhas feito. Saber que já não te tinha ali, no sítio onde te deixei, foi difícil de encarar. Mais difícil ainda de aceitar. Porque é que conseguiste seguir em frente e eu não? Porque é que ainda me questiono acerca de ti? Talvez porque foi contigo que tudo começou.

Desequilibraste-me e desde então nunca mais consegui prosseguir a rota que para mim tinha traçado. Fizeste parágrafo e eu continuei em reticências. Na verdade, precisávamos apenas da pausa de uma vírgula para retomar, num compasso constante, aquilo que descobrimos em tempos diferentes. Eu gostei de ti cedo demais, tu gostaste de mim demasiado tarde. Era isso que nos unia, mas eu não podia avançar e tu não podias recuar. Andámos desencontrados. Perdidos.

A minha segurança inicial dissolveu-se com o desejo de dias melhores. Deu lugar à incerteza e à insatisfação. Comecei a pensar que não era ao teu lado que me idealizava. Comecei a inventar-te defeitos e pretextos para me afastar. Tive medo da tua proximidade. Quando não a tinha, desejei-a. Quando a tive, rejeitei-a... consciente de que o arrependimento se iria enraizar.

Não sei o que quero, mas invejo a leveza com que te reergueste. Desejo a relação que tens, só não sei se contigo. Queria falar-te com palavras e queria que me respondesses com sentimentos, mas tenho dúvidas se não estou a pedir algo que depois não vou conseguir corresponder. É nesta quimera que fico diletante, não sei se é a vontade de possuir ou o vazio de mim próprio. Um dia disseste-me que tinha de me encontrar, penso que não o fiz porque fiquei à espera que tu me encontrasses. Ao mesmo tempo, queria olhar para ali e encontrar-te à minha espera. Como se estivesses de reserva. Embora compreendesse o impasse, achei que dele poderia fazer um elástico.

Agora pouco ou nada temos a ver. Estás numa outra página e eu continuo a tentar pontuar o primeiro parágrafo. Procuro um ponto final definitivo para te suprimir da minha história. Chega de penar. Não te quero corrigir, só te pretendo riscar. Por muito que escreva, por muita pontuação que coloque, não é isso que te suplanta da minha narrativa. Preciso somente de saber se é isso que realmente quero, ou se pretendo deixar a narrativa em aberto para a incerteza da borracha que a pode apagar.

Sunday, July 3, 2011

I don't know much about guns but I've been shot by you

Estás longe. Tão longe que já não temos a possibilidade de criar aquilo que um dia projectámos. Eu continuo a amar-te à mesma. Em silêncio. Vejo-te em pequenas coisas, detalhes. Imagino-te. Minha. Ainda que nunca te tenha sentido como minha, alastra-se por todo o meu corpo um arrepio tão inexplicável como as lágrimas que correm rosto abaixo. Dolentes, amargas até. São por ti. Por gostar de ti e não te poder ter. Assombra-me a hipótese de um dia ter tido essa oportunidade, não me pareceu remota. Estivemos perto. Muito perto. O que eu senti tenho a certeza que também sentiste. Conhecemo-nos de tal forma que chegava a ter piada como lidávamos um com o outro. Uma relação de toca e foge... de quanto mais me bates mais eu gosto de ti. Se na altura tinha dúvidas, elas pouco a pouco foram desaparecendo. Quando já estavas fora do alcance, quando já não te avistava no horizonte de um sol posto. Nesse momento, às escuras, tomei consciência. Deixei-te fugir. Foi isso. Deixei-te escapar de uma maneira tão furtiva que o nosso instante foi a presa de um impiedoso predador.

Será que vale sentir de forma tão intensa? As borboletas na barriga morreram asfixiadas, levaste-lhes o ar. Ficou um vazio desconcertante que insiste em habitar-me, pesado. E este meu estado tem dias, sabes? Há dias em que esqueço completamente. É algo latente ao fundo de uma sala de porta fechada. Há outros dias em que as paredes da sala desabam e o latente passa a dor.

Não posso odiar-te nem culpar-te. Se há um culpado sou eu. Mais do que culpado, arrependido por não te ter conquistado. Eu o príncipe conquistador. Tu a princesa que vive na torre do castelo. Uma investida de armas e cavalo branco. Imaginas? Eu também! Contigo não eram necessários jogos, nem hesitações, nem inseguranças. O que existe agora é um deserto entre nós. Tão difícil de caminhar nele. Sem garantias. E do outro lado estás tu, feliz, e isso basta para que o tempo venha e me dissipe este impasse.

Acordo num purgatório onde sinto a minha pequenez. Estou despido de qualquer convicção e deixo-me absorver por um pessimismo que me leva a um lugar obscuro e vil. Sinto as lâminas e o vidro por onde escorre o sangue que o meu coração continua a cuspir. Deixo ir a parte de mim que quer cair na incerteza.

Tomo mais um comprimido. Sei que me vai deixar absorto e apático, fraco e sonolento. Isto já não é por ti. É por mim. Pela angústia que o futuro fatalmente me traz. Um futuro solitário e egoísta. Estou preso entre o que devo fazer e o que quero fazer. Entre o que me deixa triste e o que me faz realmente feliz. Entre a sobrevivência e a dependência. Entre uma afiada espada e uma rugosa parede. Entre a responsabilidade e a liberdade. Preciso das duas mas não lhes encontro a dose certa. De uma tiro os benefícios da outra tiro o proveito. Uma é a terrível ressaca a outra a gulosa embriaguez.

Refugio-me nas palavras que, aos soluços, se juntam e fazem um sentido tremendo. Justificam o meu espírito insatisfeito. Dão-me um conforto efémero. O conforto que tu de outra maneira me poderias dar. É aqui que também fazes sentido. Comigo.

Tento encontrar um lugar para mim mas não me ajusto em lado algum. Sou simplesmente eu, comigo próprio em sítio nenhum. Continuo a procurar e a procurar-te. A procurar alguém que comigo dê a equação certa, para que dela façamos o lugar que agora não encontro. Quero tempo. Muito tempo. Não o tenho. E é essa inevitabilidade que me por vezes me faz querer arriscar tudo o que tenho, outra vezes abre-me o caminho para a minha auto-destruição. Enquanto me defino, o tempo passa, galvanizador, implacável. Com ele leva a possibilidade do tudo ou nada ser, de tudo ou nada ter.

Thursday, April 14, 2011

I met someone by accident who blew me away


Cheguei a casa cansado de um dia de trabalho. A camisa branca já vinha meio amarrotada e o colarinho aberto. Durante meses a fio senti a tua falta. Hoje não tenho bem a certeza porquê nem sequer me lembrei de ti. Quer dizer, estou a pensar agora devido ao facto de não o ter feito como sempre fiz desde que saíste de casa.
Sabes o que para mim é mais estranho? Conheceres-me como ninguém me conheceu até hoje. Sabes a cor do meu sangue, sabes como sou quando durmo, quando lavo os dentes, já sabes de cor o meu mau feitio matinal, que não gosto do leite quando fica muito tempo fora do frigorífico, conheces o meu corpo como conheces a rua da casa onde sempre viveste. E de um momento para o outro partes com um novo rumo, como se a intimidade que partilhámos fosse, sei lá, tão banal como uma conversa de café com um desconhecido.

Entretanto fui-me habituando a estar sozinho, depois de ti não foi fácil reconstruir a minha vida. Pelo menos da maneira que eu desejava. Não tenho a capacidade de suprimir sentimentos à velocidade com que tu o fazes. Talvez o meu sistema tenha uma cilindrada inferior à do teu.
Agora não sou capaz de amar, de gostar, de olhar com olhos novos. Deixaste-me um peso impossível de carregar, estou ancorado num sítio onde eu não quero estar, a uma memória que não quero protelar.
Soube há umas semanas que estavas feliz, que já tinhas alguém. Um substituto, é assim que eu prefiro ver a situação. Se bem que, sinceramente e modéstia à parte, eu acho que sou insubstituível. Mas espero que ele seja alto o suficiente. Inteligente que baste. Acredita, nunca vais encontrar ninguém que se equipare sequer àquilo que eu sou, a tudo aquilo que fui para ti.


Ainda sei a melhor forma de te magoar, mas também sei como te dar prazer. Sei que adoravas ter as minhas mãos em cima de ti, era isso que mais querias sentir quando eu chegava do trabalho. Desejavas-me de uma maneira tão forte que não te conseguias controlar. A tua respiração era incessante quando me beijavas, mordias-me o lábio, agarravas-me nos pulsos, cravavas as unhas e empurravas-me para o sofá, sentavas-te de joelhos em cima de mim, olhavas-me e dizias que me amavas, que nunca ninguém te tinha feito tão feliz. Eu sorria e retribuía ao puxar-te para mim.

Tudo isso me fez falta durante algum tempo. Demasiado tempo, para ser honesto. Fico satisfeito que estejas feliz, mas na dúvida se és mais feliz agora ou quando estavas comigo. Alguém que fique em termo de comparação comigo, sai certamente a perder. Tu sabes disso, acho eu. Adorava que um dia te arrependesses, gostava que pelo menos tivesses uma recaída, para eu sentir a força da droga que fui para ti. Adorava ainda mais ser orgulhoso o suficiente para não ceder. Para te desprezar. Já resultou noutras situações. E mais do que ninguém tu sabes quando eu digo “não” e quero dizer “sim”, sabes quando digo gosto e na realidade não gosto. Portanto, mesmo que me contivesse ias perceber. De qualquer forma, sentir-me-ia vencedor se te resistisse neste jogo de hipóteses que agora formulo. De facto, só serviu para perceber que, apesar de ter chegado a casa e não me ter lembrado que te podia ter à porta à minha espera, continuas a não sair do meu subconsciente. E sabes o mais irritante no meio de tudo isto? Eu não saber se se passa o mesmo contigo.

Wednesday, December 1, 2010

Young love murder

Sempre que eu estava sentado à secretária costumavas apoiar-te no meu ombro, com os braços cruzados. Gostavas de me vir perguntar o que é que eu estava a fazer ou dizer-me alguma coisa ao ouvido. Daquelas que me desconcentravam e me davam vontade de te agarrar... os meus braços à volta da tua cintura, as minhas mãos por debaixo da camisola que vestias, os meus dedos a sentir as tuas vértebras e as covas que tens nas costas... os teus braços à volta do meu pescoço. Eu era muito feliz contigo. Pretérito imperfeito, eu sei. E imperfeito era tudo aquilo que eu não queria ver.
Até certo ponto, achei que tinhas paciência para mim, achei que me percebias. Juntos formávamos uma equipa e apesar de sermos pessoas completamente opostas, fazíamos sentido. Connosco, 2 + 2 eram um sem número de hipóteses inverosímeis. De tal forma que me questionei se toda a nossa química não ia resultar um dia na explosão de todo o laboratório.
O sentimento era uma espécie de embriaguez... eu não estava lúcido, de todo. E quem me conhece sabe bem o quão pouco gosto de perder o controlo sobre mim próprio. Sou provavelmente aquilo que se denomina de control freak. E já que estamos numa de estrangeirismos, I let myself go e perdi-me no labirinto que criaste para me engolir eternamente. Aquele labirinto era impossível e eu para além de não perceber, também andei às voltas, num quebra cabeças... que no final acabou por ser um quebra corações. Plural não, singular que eu só tenho um. As palavras cruzadas começaram a não ter espaços suficientes... porque eram silêncios. Silêncios teus. Não sei se estavas à espera que os entendesse, não sei se foi a maneira mais fácil de conscientemente me excluires de ti. Foi angustiante e inesperado. Nessa altura eu estava sozinho... sem ter para onde ir.
Desapareceste. E eu fiquei ali. Agora nem metáforas tenho para explicar aquilo que sinto. O vazio. Já alguma vez te perguntaste como será? É escuro e triste. Não sei bem se tem paredes porque não as consigo ver... a sensação é a de que estou sempre a cair. É frio. Gélido até.
De facto, não sou descartável, mas foi esse o uso que me deste. Fizeste-me acreditar em ti de uma forma predatória mas sedutora. Se valesse a pena, castigaria a minha ingenuidade. Fui tão estúpido e ainda sou por estar aqui a escrever. Escrever!... tem piada porque até essa vontade me tiraste. Incrível, nunca pensei que alguma vez pudesses ter estes efeitos colaterais. Nunca pus essa hipótese sequer.
Seguiste como se nada fosse. Olá, hoje. Adeus, amanhã. Tão simples quanto isso. Não olhaste para trás sequer. Para mim foi fulminante... como um fósforo... à medida que ardia, ia queimando. E foi em cinzas que fiquei. A questão é que a lenda da fénix não passa disso mesmo: uma lenda. Por isso não houve renascimento para ninguém. Muito menos vento para levar as cinzas em que me tornei. Gostei demasiado de ti e fiquei inábil. Sem pensar. Absorto no teu último olhar... que mal consigo recordar porque não imaginei que fosse o último. Lembro-me sim que era triste, sempre foi. Aliás, eu era a tua parte mais feliz. Essa tua melancolia foi aquilo que nos equilibrou... as tuas imperfeições pareciam-me românticas. Trágicas. E os papéis inverteram-se. Absorveste-me e depois deixaste-me, como se fosse um despojo. Um peso na consciência, talvez. Na tua, claro!
Acho que nunca fui tão verdadeiro com ninguém. Agora vejo o senão dessa minha entrega altruísta. Se não fosses tu, a esta altura eu continuava sentado à secretária. Afinal bastava que fechasses a porta ao sair. Porquê? Porque também a soubeste abrir quando quiseste entrar.

Friday, June 4, 2010

I'm done, smoking gun...

O cinzeiro está cheio de cinzas e beatas dos cigarros que fumei enquanto esperava por ti. Esperei em vão porque nunca apareceste e foi preciso estar sem ti para perceber que afinal eu conseguia estar sozinho. Nenhuma das tuas peças completou o meu puzzle. Eu tinha as peças todas dentro de mim, mas nunca as tinha encontrado. Andei-me a enganar por pensar que contigo o mundo fazia sentido, por pensar que contigo o sol brilhava mais forte.

Agora estou aqui sentado. E não, já não estou à tua espera, se é isso que estás a perguntar. Não preciso de ti para ser feliz, até porque nunca me conseguiste surpreender. Nunca te entregaste e nunca foste capaz de retribuir aquilo que senti por ti. Fiquei vazio e esperei. Esperei até ao dia em que a minha consciência voltou e me trouxe de volta ao meu chão. Olhei para mim e não me reconheci do tão pouco que restou. Tu levaste aquilo que havia para levar e eu declaro-me culpado por me ter perdido nesta estrada inútil, que não me leva a lado nenhum mas que me tira as forças que eu tenho e as que não tenho.

Não é sequer possível contar a vezes que adormeci e acordei a pensar em ti. A pensar como era estar ao teu lado, a olhar as tuas fotografias e a encontrar detalhes pelos quais me apaixonei. Detalhes que não estavam lá, detalhes que a minha cabeça criou para que fosse mais fácil amar-te. Os dias eram folhas de um livro aborrecido, cujas páginas custam a acabar de ler. Não passavam. Arrependo-me de não ter percebido mais cedo que existiam outros livros para ler, livros que sempre estiveram ali. Mas eu insisti em ler aquele. Aquele livro difícil e indolente.


Acendo mais um cigarro, que me vai ajudar a procurar dentro de mim aquilo que eventualmente deixaste. Uma memória, uma palavra, um momento… nada. Não encontro nada. Nunca me olhaste da maneira certa. Nunca me tocaste. Nunca me sentiste. Não vais conhecer o meu cheiro. Nem terás o prazer de saber se as minhas lágrimas são salgadas.

Apaguei o cigarro e levantei-me. Fui até à porta, abri-a e saí. Não olhei para trás e sinceramente não me arrependi. Fechei a porta com força e perguntei-me a mim mesmo se tinhas valido a pena. Não, não conseguiste tornar-te na pessoa que desenhei com lápis de cor na minha cabeça. Agora vou procurar um novo livro, com um novo puzzle porque o meu coração ficou em cinzas, dentro do cinzeiro da casa que um dia foste e à qual nunca mais vou voltar. Foi simples e não precisei de dizer adeus. Foi como se nunca tivesse lá entrado.

Thursday, April 8, 2010

Tens meia hora para mudar a minha vida

It all started when you stopped showing up in my dreams.
Now I don't love you anymore.

Wednesday, March 3, 2010

It feels so good just to be yours, I wouldn’t miss it for the world

Chegaste a casa e fechaste a porta com mais força do que o habitual. Passaste por mim em silêncio. E eu pressenti que devias estar num mau dia. Daqueles dias em que fingias que eu não existia. Daqueles dias em que tudo aquilo que eu fazia era precisamente o contrário daquilo que tu farias. Daqueles dias em que inexplicavelmente me odiavas. Não por alguma coisa que eu tivesse feito, mas porque sim. Eu até acho que não sabias bem o porquê. Era o teu mau humor que te tornava numa pessoa completamente diferente. E infelizmente vim a descobrir tarde demais esse teu lado. Escuro. Insensível. Egoísta.
Percebo essa tua vontade de te isolares de vez em quando. De teres o teu espaço. O teu canto. A única coisa que não percebo é porque me excluis. Porque é que fazes questão de me espezinhares. Na minha cabeça, tudo isso entra em contradição com aquilo que me disseste quando nos conhecemos. Dizias que te sentias bem nos meus braços. Que gostavas da protecção que eu te dava. Fechavas os olhos quando me beijavas. Não me querias perder por nada. E agora fazes com que me sinta a mais. Já não precisas de mim para te completar. És auto-suficiente. Demais até. Fazes-me parecer inútil ao pé de ti. Esqueces-te de mim. Ignoras-me. Desprezas-me. E não imaginas como me estás a deixar vazio. Absorveste tudo o que havia em mim. E deixaste-me aqui simplesmente. Para quando te apetecer, talvez.

Lembras-te das nossas primeiras noites juntos? Querias-me junto a ti. Os nossos corpos tornavam-se num só. Tocavas-me na cara. Trincavas-me o lábio. Eu sentia-te respirar. O meu nariz tocava no teu pescoço. E imaginávamos que toda a nossa vida podia ser assim. Feliz e perfeita. No início tudo pareceu eterno. E eu pensava que a eternidade não tinha fim. Mas enganei-me mais uma vez. Não tens noção do tempo que esperei por ti. Para ter a certeza que estávamos na mesma página. Mesmo quando ninguém dava nada por nós. E afinal parece que só estavam a ver aquilo que não queríamos ver. Éramos demasiado diferentes. E as nossas diferenças nunca nos aproximaram, pelo contrário. Deixavam aquele vazio, impossível de preencher, impossível de evitar.

Nunca pensei chegar até onde estou neste momento. Quero-te ao meu lado como nunca quis ninguém. Quero que me ames, que olhes para mim, que me faças sentir especial. Quero que me surpreendas, que me desejes, que partilhes o que há de mais banal comigo. Não quero que vivas no teu mundo e me deixes no meu. Porque não podemos habitar o nosso mundo? Porque não voltas a entrelaçar os teus dedos nos meus? Porque não me empurras contra a porta e me beijas? Para mim as coisas fazem mais sentido quando estás comigo. Quero voltar a apaixonar-me por ti. Vezes sem conta. Sentir o frio na barriga. O meu respirar nervoso e instável. Quero o teu mistério, a tua voz no meu ouvido, o cair do teu cabelo no meu corpo, a tua alma, o teu calor.
Por ti podia até ser inconsequente, desde que não existissem dias em que bates a porta com mais força do que o costume. Nesses dias eu não sou ninguém. Não existo. Sou apenas um fantasma. Uma sombra. Tudo aquilo que vivemos foi mágico e nesses dias deixa de o ser. Fazes-me não querer ter portas em casa. Por isso, desejo prolongar-te na minha existência. Dar-te tudo o que tenho. Entregar-te a minha essência de mãos abertas. Sou teu. De mais ninguém. Promete-me apenas que não chegas tarde demais, nem partes demasiado cedo. Podemos fechar então a porta de casa, com a força suficiente para ficarmos trancados numa felicidade eterna que acredito que anseias tanto quanto eu.

Saturday, January 9, 2010

I can't get you out of my system

Não sei bem por onde começar porque nem sei bem como tudo começou. Pensando bem, acho que nem sequer teve um início. Sei que agora sou diferente do que era. Mudei. Todas as minhas certezas foram abaladas e afinal parece que não me conhecia assim tão bem. Nem sequer sei explicar aquilo que realmente sinto, nem aquilo que quero. Fiquei sem certezas, só dúvidas. Dúvidas que me tiram o sono. Dúvidas que me deixam com saudades. Dúvidas que permanecem e me deixam vulnerável. Sem chão. Sem sol. Sem força.

Perdi a inspiração. As palavras não escorrem, como costumavam escorrer. O brilho dos meus olhos embaciou-se. E agora só me restam as lembranças daquilo que podia ter sido. O coração salta-me pela boca. Frio. Gelado. Vazio. E esteve tão bem guardado durante todo este tempo. Numa caixa. Preta. Escondida. Esquecida. Até ao dia em que ficou grande demais e encontrou a maneira mais improvável de abandonar a caixa.

Não tenho sono. Estou cego. Impaciente. Quero tudo, mas não quero nada. Não sei quem sou. Estou a cair, porque não tenho chão. Estou a cair e não sei quando vou parar. Acho que agora percebo a Alice. E afinal lá porque eu senti não significa que tudo isto exista. Pode ser uma ilusão. Um pesadelo. É possível sermos almas? Almas que se ligam de uma forma tão inteligível que vai para além de tudo aquilo que pensávamos ser certo? Será que se eu fechar os olhos, quando os voltar a abrir ainda vou estar aqui? Preferia pensar que tudo era mais fácil e controlável. Era mais fácil se conseguissemos controlar, ter dentro da palma da mão e conseguir exteriorizar e jogar com os peões. Para ser melhor. Para evitar o pior. Em vez de tudo se desmoronar agora, preferia que se desmoronasse depois. Mas de que vale prolongar a cegueira?

Estou num limbo. Num sítio incerto. Cheguei a pensar que era o purgatório dos sentimentos. Onde dissecaram o coração que outrora havia habitado uma caixa preta dentro de mim. Estou a oscilar entre o estar aqui e o não estar. Entre o que fui e o que me tornei. Estou a cambalear na minha insegurança, na eterna procura daquilo que realmente quero. Sem pensar que muitas vezes o que realmente quero nem sempre é aquilo que é melhor para mim. De facto, prefiro ficar cego. Prefiro não ter direcção. Nem rumo. Só sei que aqui não quero ficar. Posso seguir em frente para o desconhecido. Ou voltar atrás, sabendo que o atrás já não vai ser o mesmo atrás pelo qual passei. Não que esteja diferente, mas porque agora eu estou diferente e sei que vou olhar com outros olhos. Ou nem olhar sequer. Afinal esqueci-me que sou cego. Mas mesmo cego opto por carregar o piano* e chegar à sala errada. O cansaço ensinou-me de que vale sempre a pena.

P.S. Referência final ao texto "Carregar pianos" do blog da Dezperada que passo a citar:

«Carregar pianos. Escada acima, quatro andares sem elevador. As costas doem, os braços tremem, as curvas da escada são uma equação impossível de resolver, tudo é difícil, tudo é esforço, tudo é inglório. E o amor transforma-se numa luta, num sacrifício, somos mártires da nossa loucura, flagelados pela nossa obstinação e teimosia. E o pior é que, quando chegamos ao fim da batalha e o piano está lá em cima, não era aquela sala, nem aquela casa, nem aquela pessoa.» by Dezperada

Sunday, October 11, 2009

Não precisa de título

Abri a porta do nosso quarto. Olhaste para mim e disseste que não gostavas de me ver com a barba por fazer. Eu sorri, aproximei-me de ti e abracei-te. Se soubesses há quanto tempo tento ser aquilo que tu queres. Acho que até perdi uma parte de mim pelo caminho. Porque tenho medo de te perder. Muito. Acho que se te perder não vou conseguir encontrar ninguém melhor. Acho que se te perder vou ficar sem chão. Acho que se te perder nunca mais vou conseguir ser feliz. Mas só se perde aquilo que se tem. E perguntei-me a mim mesmo se alguma vez te tive.

As minhas mãos desceram pelo teu corpo e tu murmuraste “Hoje não!”. Afastaste-te e eu fiquei ali a olhar para ti. Para os teus olhos. Já não encontrei aquele brilho pelo qual me apaixonei, mas quis-me enganar e pensar que as coisas podiam continuar a ser como quando nos conhecemos. Disseste várias vezes que eu era imaturo e que precisava de crescer. Enfrentar as coisas. Olhar para a frente e não para o chão. Deixar de ser indeciso, porque na vida não se pode ter tudo. Tem de se fazer uma escolha. Sim, é verdade que eu sempre fui indeciso, mas não em relação a ti. Sempre te quis, sempre soube que eras aquela que ia preencher aquela parte de mim que estava vazia. Deste-me sol quando estava chuva. Fizeste-me rir quando tinha razões para chorar. Ensinaste-me a desejar as coisas boas da vida. A ser ambicioso. Sonhador. Empreendedor. E eu fiz tudo o que foi preciso para te surpreender e mostrar que por ti, só por ti, as coisas valiam a pena.

Costumávamos ficar na cama até tarde. Quando eu acordava estavas a mexer-me no cabelo. Agarravas-te a mim e dizias que tinhas frio. Era aquele teu pretexto para teres os meus braços à tua volta. Sempre gostaste de te sentir protegida por mim. Mas as coisas entre nós já não são o que costumavam ser. Já não me beijas da mesma maneira. Não me abraças da mesma maneira. Nem tens vontade de me arrancar a camisa como adoravas fazer. Ficas confortável no teu frio e não precisas das minhas mãos para te aquecer. O teu isolamento fez-me pensar que se calhar não podíamos ficar juntos. Dei-te todo o espaço que precisavas e mesmo assim não estavas satisfeita. Ganhei coragem e perguntei se era só a barba por fazer que tu não gostavas em mim. Reviraste os olhos. De seguida, perguntei se era comigo que querias mesmo estar. Ficaste em silêncio. E foi nessa mesma noite que as coisas ficaram claras para mim. Estávamos juntos por comodismo. Porque eu conhecia os teus pais e tu conhecias os meus. Porque já tinha passado algum tempo e parecia mal deixares-me sem razão aparente. Estávamos juntos porque sim. Porque vivíamos aprisionados às memórias do que fomos juntos e não percebemos que com o tempo aquilo que nos unia mudou e tudo deixou de valer a pena.